Notícia

Herácles Dantas, o fotógrafo da morte

Uma cidade com cerca de 400 mil habitantes, sem internet ou celular e tudo mais que pode advir disso. Ou seja: sem facebook, sem instagram, sem youtube, sem whatsapp, sequer um telegram. Não. Não é a hecatombe zumbi ou algum episódio de The Walking Dead. Isso era Natal, capital do Rio Grande do Norte, na década de 1980.

Para ficar mais claro ainda: também não havia shopping e a ligação da zona sul com a zona norte da capital era feita por apenas uma ponte, a de Igapó, que na época ainda não tinha sido duplicada. Naquela época, o mais próximo de rede social que podia haver eram alguns pontos de encontro que a cidade possuía, como a praia dos Artistas.  Foi um tempo no qual a pauta da capital era ditada por algo que hoje luta para sobreviver: o jornal impresso. E havia, naqueles anos de 1980, um impresso que se destacava: o Diário de Natal, que funcionava no final da avenida Hermes da Fonseca, Centro da cidade. O veículo de comunicação – pertencente aos Diários Associados – tinha como diretor Luíz Maria Alves e se destacava porque fazia a melhor cobertura das notícias policiais (além de não pertencer à família Alves).

Quando se diz “fazia a melhor cobertura das notícias policiais” isso significa dizer que as capas dos jornais traziam sim fotos de pessoas mortas. E quanto mais “barra pesada” o crime ou a morte, mais vendia.  Era uma época tão louca que quando morria uma pessoa na cidade, era um acontecimento. [Ou será que a loucura é agora, quando para ser acontecimento precisam morrer mais de 20?]

Em 1984, mais exatamente, houve um fato que marcou a memória da cidade. Dia 25 de fevereiro daquele ano, no Carnaval, 19 pessoas morreram e outras 12 ficaram gravemente feridas num atropelamento ocorrido na ligação da rua Coronel José Bernardo com avenida Rio Branco, embaixo do viaduto do Baldo. Foi tão marcante, que acabou com uma tradição da cidade: antes disso, os blocos carnavalescos sempre passavam por debaixo do viaduto. Depois disso, ninguém mais passou. Há mesmo quem indique que o desastre foi responsável por acabar com o carnaval de rua em Natal. Ninguém queria lembrar a tragédia.

Toda essa introdução é para que você tenha noção do universo que habita o personagem do vídeo de hoje: Herácles Dantas, fotojornalista, que trabalhava no Diário de Natal nessa época. Naquele ano, segundo conta, ele foi um dos primeiros a chegar no que ficou conhecido como “a tragédia do Baldo”. “O neto de Dinarte Mariz deu o último suspiro nos meus pés. Será que eu cheguei na hora? [faz o barulho de um suspiro] Esse aí já foi. Pode botar pra lá”

Apesar de não ter nenhuma imagem guardada desse acontecimento especificamente, Herácles conta que foi a partir daí que ele “se apaixonou” por fotografias de tragédia e morte. E “espertou” para o fato de que aquelas imagens feitas para um jornal diário poderiam se tornar um acervo único. Então resolveu iniciar algo mais singular ainda, no Rio Grande do Norte: uma coleção de imagens de mortes. Hoje ele possui mais de mil fotografias de acidentes, cadáveres e congêneres.

São fotografias desde aquela época, ainda em preto e branco, feitas com máquinas analógicas e outras, já no universo digital, guardadas em cds. Uma boa quantidade dessas imagens está reproduzida em papel fotográfico e são peças únicas de coleção. O “fotógrafo da morte” – como ele admite ser chamado – tem um sonho: que seu acervo vire livro. E espera que seus filhos preservem esse seu legado.

 

TESTEMUNHO  JORNALÍSTICO

Herácles não fez universidade de jornalismo. Mas tem o que hoje faz falta em muito aluno universitário: paixão por notícia. Ele é de uma outra escola. Aquela que formava os repórteres no dia a dia. Num tempo quando o “politicamente correto” era um termo que ainda não existia. E não havia também cuidado com relação a cenas de violência nas capas de jornal ou controle de idade para conteúdos distribuídos. Era uma época diferente. Mas que ajudou – por caminhos tortos – a construir o mundo que hoje vivemos.

Por ter trabalhado nesse tempo e em diferentes jornais, ele é uma testemunha da história, não só da cidade, mas do jornalismo e da fotografia. E também porque ainda está vivo e pode falar das diferenças e relações das tecnologias usadas na sua profissão.

É de uma riqueza singular o que ele fala sobre fotojornalismo e fotografia preto e branco. Conteúdo que a TIPO separou em um vídeo próprio. Para ajudar a pensar também sobre como hoje as notícias e as fotografias são produzidas, seus valores e formas de fazer.

 

 

 ATENÇÃO: A PARTIR DAQUI VOCÊ ESTÁ POR CONTA PRÓPRIA

A TIPO fez um vídeo com Herácles apontando as fotos mais marcantes da coleção dele. São imagens fortes que só devem ser vistas se você tiver mais de 18 anos e achar que aguenta a pressão. São realmente muito fortes as imagens. Tanto que teve uma que nem a gente topou dar o close. Então, antes de dar o play aí abaixo, pense bem. Depois – quando estiver tendo pesadelos à noite – não vá nos culpar…

 

 

 

 

 

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