Opinião

Notícia custa caro*

Custa o sono e os sonhos do repórter, os fins e começos deles. Custa as roupas com as quais ele vai trabalhar. Custa a passagem de ônibus, o café da manhã, a mochila, a caneta e o papel. Custa a saída, a gasolina do carro de reportagem e os gastos dos outros que formam a equipe: o motorista e o fotógrafo.

Uma notícia custa entrar em contato com o fato, convencer pessoas a serem entrevistadas; conseguir varar a multidão de curiosos e a desconfiança dos policiais; o choro dos parentes; as moscas; crianças morrendo como ratos; uma manhã de sábado de sol; cadáveres; poucas balas; nenhuma solução.

Uma notícia custa o prédio do jornal; a volta para a redação; o computador para escrevê-la; a energia elétrica; o cigarro para inspirar; a cárie e o estudo do jornalista; seu conhecimento de mundo; sua percepção (ou não) de que numa cidade com cerca de um milhão de habitantes, jovens tem sido apagados como que em sincronismo com as teclas sendo atacadas quando o repórter escreve seu texto. Uma redação tem muitos repórteres.

Uma notícia custa a atenção do editor; a elaboração do diagramador; o envio para a impressão; rolos e rolos de papel (ah, o papel do jornal); a publicação; o preço da edição; a banca de revista; a leitura; o resto do produto; o lixo; a boia. A história.

A notícia também custa seu erro. Uma notícia custa um dia; um mês; um ano; um século ou todos.

Uma notícia custa uma vida. Ou dezenas. Ou centenas. Ou milhares. Ou todas, caso estejamos tratando do apocalipse, do fim da vida na terra (se é que você me entende).

A falta de uma notícia não custa menos. A falta de uma noticia custa esquizofrênicos sem remédio para controlar os sintomas da doença (pondo em risco seus familiares, em alguns casos); diabéticos sem seringa para a insulina; hospitais sem leitos para atender acidentados; cidades sem bons governantes; corrupção, desonestidade e impunidade.

A falta de uma notícia custa a perpetuação da concentração de renda nas mãos de três ou sete famílias que enriquecem desde sempre sugando de canudinho o pouco sangue de um estado miserável; custa a falta de reconhecimento a quem realmente trabalha e estuda acreditando num futuro melhor; custa a exploração de crianças, mulheres e homens; o assédio moral nos ambientes de trabalho; custa o transporte caro, desconfortável e escroto.

Custa a prevenção a toda sorte de males: da praia suja aos males da talidomida; dos riscos de fumar aos de trepar sem camisinha (no Haiti); do leite com manga ao frango da encruzilhada.

A falta de uma notícia custa a doença e a guerra. Custa a miséria, o analfabetismo; o tráfico; o saneamento básico; a seca; a poluição; e a ignorância.

A falta de uma notícia custa a verdade e a paz, que o digam Cristo e Barrabás.

Uma notícia custa uma vida. Ou dezenas. Ou centenas. Ou milhares. Ou todas, caso estejamos tratando do apocalipse, do fim da vida na terra (se é que você me entende).

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