Curadoria

Mídias sociais podem moldar memórias 

As mídias sociais podem moldar nossa memória. Essa é a tese levantada pelo artigo “Facebook is re-sculpting our memory”, escrito por Olivia Goldhill, para o site o Quartz. Apesar do título se referir ao Facebook, a leitura do texto mostra que a questão diz respeito mesmo às mídias sociais como um todo.

No texto, traduzido livremente aqui, ela afirma que durante muito tempo, a única forma de termos uma crônica da nossa vida era escrevendo sobre isso. E que agora, com as mídias sociais, principalmente as mais voltadas para imagem, como o Facebook e o Instagram – ambas do mesmo dono – nós estamos suscetíveis a lembrar mais aquilo que fotografamos e a esquecer o que ficou fora das fotos. Independente dessa escolha ser positiva ou negativa.

Daniel Schacter, professor de psicologia da Universidade de Harvard, estabeleceu os efeitos das fotografias sobre as memórias na década de 1990. Em um experimento , ele mostrou que era possível implantar falsas lembranças, mostrando fotos de um evento que pessoas poderiam ter experimentado, mas não o fizeram. Em outro, ele descobriu que não só ver as fotos aumentar a memória desse evento em particular, mas também memórias prejudicadas de eventos que aconteceram ao mesmo tempo e não foram apresentados nas fotografias.”

O laboratório de Schacter pesquisa sobre como a memória se relaciona com outras habilidades cognitivas. Segundo ele, conforme Olivia Goldhill, as fotografias têm o potencial de distorcer a memória. E isso é comprovado quando vemos fotografias de eventos que não ocorreram dentro de uma sequência referente a um evento. As fotos “fake” se tornam memórias falsas.

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Daniel Schacter, professor de psicologia da Universidade de Harvard

O artigo destaca ainda o fenômeno chamado de “esquecimento induzido pela remoção”, ou seja, as fotografias não só podem nos fazer lembrar de eventos, como também o que será esquecido.

“Com as pessoas fazendo isso mais e mais, há a probabilidade de reesculpir o passado de maneiras que promovam as coisas que estão no Instagram ou em outro lugar, mas tornam menos provável lembrar coisas relacionadas que não chegam ao depósito online”, diz Schacter.

Como se tudo isso já não fosse o suficiente, o pesquisador aponta um aspecto preocupante: as memórias estão suscetíveis também a notícias falsas, as chamadas “fake news”.

Segundo ele, isso acontece porque muitas vezes temos dificuldade de lembrar exatamente qual a origem da informação que apreendemos. Na era digital, com cada vez mais fontes e mais informações, fica cada vez mais fácil lembrar de determinada notícia crendo se tratar de algo obtido em fonte confiável. 

Ao final do artigo a autora faz dois alertas: (1) “As mídias sociais podem moldar as memórias que lembramos, mas não está claro se isso vai piorar nossa memória”; e (2): “A forma como as mídias sociais moldam nossa memória pode acabar tendo efeitos prejudiciais para outros hábitos mentais. Todas essas horas no Facebook podem mudar não apenas o que fazemos com o nosso tempo, mas como pensamos.”

Será? Entre uma teoria e outra, uma coisa ao menos é certa: a cada dia deixamos mais de nos preocupar com nossas memórias e relegamos esse papel a tecnologias e dispositivo.

Talvez essa liberação desse papel no nosso cérebro seja algo que vai nos beneficiar futuramente. Talvez sem gastar tanta energia com memórias passemos a usar melhor essa máquina até então imbatível que possuímos.

Por outro lado, num futuro bem Black Mirror, talvez possamos escolher as lembranças, a famosa “memória seletiva” ou isso seja usado contra as pessoas, fazendo-as pensar que estiveram em locais e cometeram determinados atos – um crime, por exemplo – quando isso não aconteceu.

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1 comentário em “Mídias sociais podem moldar memórias 

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