Opinião

Fazemos um jornalismo abaixo da média

Em geral, fazemos um jornalismo bem abaixo da média, é verdade. É triste admitir isso, mas é verdade. Eu diria que 90% do tempo fazemos um jornalismo bem abaixo da média. Mesmo que o jornal tenha uma equipe “bastante qualificada”.

E há razões para isso, para essa mediocridade reinante. Não conseguimos agradar o tempo todo. Não conseguimos agradar aos policiais porque mostramos que eles passam dos limites quando agridem alguém (por motivos justificados legalmente ou não); não conseguimos agradar aos estudantes quando mostramos que falta inteligência e rumo ao protesto; não conseguimos agradar também a eles quando há um conflito e querem – tanto de um lado quanto de outro – parecer vítimas, heróis ou escamotear o que realmente houve.

Sabe, não agradamos ao Governo quando mostramos as sucessivas cagadas que ele comete (quando podemos mostrar! quando há notícia); não agradamos aos médicos quando publicamos que eles deviam bater o ponto, mas se recusam a isso, deuses que são; não agradamos aos sindicalistas porque fazemos parte de empresas ligadas a políticos ou a empresários (como se alguns sindicatos não fossem empresas ou trampolins políticos); não agradamos aos políticos porque mostramos como são incompetentes e (como nós) medíocres; não agradamos à prefeitura (atualmente) porque mostramos o quanto a cidade está com o lixo coletado e as ruas meio tapadas, mas apontamos que o trânsito está caótico e sem direção (sacou? trânsito – sem direção); não agradamos aos motoristas porque flagramos centenas de exemplos de falta de educação no trânsito e publicamos as placas (que sacanagem!); não agradamos aos empresários porque mostramos que empreendimento “x” vai acabar com grande área de captação de água para os nossos lençóis freáticos. Atualmente também não agradamos aos trabalhadores porque não mostramos os danos da reforma trabalhista para a categoria.

Não agradamos ao Judiciário porque mostramos seus escândalos, sua omissão e lerdeza diante de casos relevantes nos quais a Justiça deveria abrir o olho. Não agradamos ao MP porque mostramos sua arrogância, falta de transparência e distanciamento da democracia, fora os penduricalhos financeiros legalmente estabelecidos à força. Para o Judiciário também. Com um detalhe: ambos com julgamentos em causa própria.

Não agradamos aos ambientalistas porque estamos do lado dos empresários que só querem destruir o verde. Não agradamos porque erramos mesmo. E não agradamos mais um monte de gente porque sempre somos nós (os jornalistas) que vamos para a rua fotografar e questionar os envolvidos em esquemas de corrupção.

É, meu senhor, minha senhora: somos nós que todos os dias vamos para a rua. Não é um dia perdido no ano não, bancar o herói. “É nóis” que vai pra chuva em dia de chuva tomar banho de chuva pra mostrar os males da chuva (cair dentro de poça de lama, né, João Maria?). “Is we” que vai pro sol em dia de sol: vai pro lixo, vai pro necrotério; vai pro hospital. vai pro protesto; vai pro bar; vai pro puteiro; se veste de gari; vai à missa homofóbica; vai dentro de presídio; encara matador de aluguel; bate de frente com #picaretacaradepau e ainda é chamado de “coitado” – e ainda tem de ficar calado; e é ameaçado; e apanha na rua (inclusive de polícia); e corre risco mesmo; e não ganha o que merece; e luta para sobreviver. Os jornalistas: em geral, todos os dias, trabalhadores comuns com uma tarefa diferenciada. E que também pega (ou pegavam ônibus) e que não têm tempo para integrar movimentos.

O nosso movimento é a notícia, sacou?

Mas, mais relevante que tudo isso é que em geral não agradamos a nós mesmos: não fazemos o jornalismo ideal que gostaríamos de fazer: de apontar antipaticamente certas contradições existentes na sociedade que nos cerca e avaliar os problemas sob uma ótica prática e independente: doa a quem doer, inclusive a nós. Sabemos disso, perfeitamente. O jogo é claro. Mas tem gente que finge não ver.

Em geral, apenas uma vez ou outra (decisiva para a história do lugar) conseguimos realmente casar a função, o prazer e a satisfação de cravar a notícia como ela deveria ser. Independente disso, a gente continua na batalha. Não fica no jogo quem não é assim. Quem não é assim dá logo um jeito de pular fora ou é “pulado”. Quem não gosta do jogo aprende logo a fazer jogo de cena.

Quem fica, persiste. Cansa, é verdade. mas persiste. Pira, mas persiste. Se acomoda, mas persiste.

Mesmo sabendo que além de todos esses “detalhes tão pequenos” da profissão ainda vai ter de aguentar gente (jornalista — blogueiro — proguessista — funcionário público — pequeno burguês — galado — aproveitador — gênio tuiteiro — troll — interesseiro — politiqueiro — herói — mártir — santo — intelectual — paladino da justiça — falador — holofoteiro) à espreita de uma oportunidade para querer brilhar como paladino da verdade, só para massagear o próprio ego quando (beneficiados com a notícia) vierem dizer: “esse aí é um jornalista mesmo”. Desse jeito, até eu sou, fera!

E a gente fica como? A gente fica calado. Ouve e segue em frente porque tem jornalismo para fazer. Antes era um por dia, o jornal. Agora é toda hora. E jornal não se faz só de palavras. Nem só de papel. Só quem faz é que sabe o trabalho e o prazer que dá. Quem não, não. Só tem tempo para brilhar… “Na noite / no céu de uma cidade do interior / como um objeto não identificado”. E se apagar.

 

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