Paralelos

O que muda no Facebook nos próximos meses, segundo Zuckeberg

O Facebook anunciou recentemente mudanças no seu feed, na forma como você terá acesso a ele. A principal mudança é que “o conteúdo público — publicações de empresas, marcas e meios de comunicação” terá menos espaço. E serão valorizados os conteúdos que geram mais interatividade, “postagens que provocam conversas e interações significativas entre pessoas”, conforme definiu em comunicado Adam Mosseri, o “head of news feed” do Facebook.

E é ele quem também explica, em postagem blog do Facebook Media, como isso vai funcionar. Segundo o executivo, com a atualização, para conseguir promover mais interação e relevância, o Facebook vai “prever quais postagens você pode querer interagir com seus amigos e mostrar essas postagens primeiro em seu feed”.

De acordo com ele, essas postagens “inspiram discussão de ida e volta nos comentários e postagens que você pode querer compartilhar e reagir – seja uma postagem de um amigo que procura conselhos, um amigo que pede recomendações para uma viagem ou um artigo de notícias ou Vídeo que suscita muita discussão”. Ele acrescenta que também serão priorizadas as postagens de amigos e familiares “em conteúdo público, consistente com os nossos valores de feed de notícias.”

Uma postagem no perfil oficial de Mark Zuckeberg, dia 11 de ajneiro, foi bem mais clara com relação a como vai funcionar o novo FB.

 

Segundo ele  uma das metas da empresa para 2018 é “garantir que o tempo que todos nós gastamos no Facebook seja bem gasto.”

Ele acrescenta, justificando a mudança: “Recentemente recebemos feedback da nossa comunidade que o conteúdo público — publicações de empresas, marcas e meios de comunicação — está excluindo os momentos pessoais que nos levam a nos conectar mais uns com os outros.”

E segue: “É fácil entender como chegamos nisso. O vídeo e outros conteúdos públicos explodiram no Facebook nos últimos anos. Uma vez que há mais conteúdo público do que publicações de amigos e familiares, o saldo do que está no feed de notícias deixou de representar a coisa mais importante que o Facebook pode fazer: nos conctar uns aos outros.

Sentimos a responsabilidade de garantir que os nossos serviços não sejam apenas divertidos, mas também bons para o bem-estar das pessoas. Por isso, estudamos esta tendência cuidadosamente, olhando para a investigação acadêmica e fazendo a nossa própria investigação com os principais especialistas nas universidades.

Ler passivamente artigos ou ver vídeos — mesmo que sejam divertidos ou informativos — pode não ser tão bom

O resultado dessa investigação mostrou que quando usamos redes sociais para nos conectarmos com pessoas que são importantes para nós, isso pode ser bom o nosso bem-estar. Podemos nos sentir mais conectados e menos solitários, e isso se relaciona com medidas de longo prazo de felicidade e saúde. Por outro lado, ler passivamente artigos ou ver vídeos — mesmo que sejam divertidos ou informativos — pode não ser tão bom.”

De acordo com o todo poderoso do FB, o objetivo no decorrer do ano é ajudar as pessoas a encontrar conteúdo relevante para ajudá-lo a ter interações sociais mais significativas. As mudanças começaram ano passado, mas vão levar meses para chegar ao seu objetivo final. Quando isso começar a acontecer, as pessoas vão ver menos “conteúdo público como publicações de empresas, marcas e mídia.”

“Agora, quero ser claro: ao fazer estas mudanças, espero que o tempo que as pessoas gastam no Facebook e algumas medidas de envolvimento vão cair. Mas também espero que o tempo que você gasta no Facebook seja mais valioso. E se fazemos a coisa certa, creio que será bom para a nossa comunidade e para o nosso negócio a longo prazo”, alerta Zuckeberg.

Editores

Sobre essas mudanças, o site The Outline publicou um artigo bastante interessante endereçado a editores, produtores de conteúdo, jornalistas. O autor é Joshua Topolsky, jornalista de tecnologia que, entre outros feitos, é co-fundador da The Verge; co-fundador do Vox Media e fundador e CEO do Outiline. Só isso.

Foto: Reprodução/TheVerge/SB Media
Joshua Topolsky: “Os editores não precisam do Facebook. Mas o Facebook precisa de nós.” Foto: Reprodução/TheVerge/SB Media

Em seu artigo, ele defende que essa é a melhor coisa que poderia ter acontecido para essa categoria de profissionais e fala sobre outros aspectos que estão por trás da mudança, detalhes que Zuckeberg nem de longe admitiria, como o fato de que o FB é um dos grandes responsáveis pela proliferação das notícias falsas (fake news), junto com o Twitter.

Segundo ele, “a mensagem é clara: no cenário bagunçado de notícias de um mundo pós-Trump, o Facebook quer se distanciar das coisas feias; do material que não entende e que obviamente não pode controlar.”

Ele critica ainda a rede social e a forma como o Facebook se deu bem em cima de editores/produtores de conteúdo/jornalistas ao propor parceria com a qual só a empresa saiu ganhando. “Como eu escrevi em 2016, nenhuma quantidade de parceria com os players de mídia social iria salvar os editores do trabalho dolorosamente difícil de fazer algo de valor para seres humanos reais. Na melhor das hipóteses, essas redes proporcionariam um impulso temporário, um incentivo para investir em sua experiência. Os editores o fizeram por medo, ou a incapacidade de ver que o que é bom para o Facebook raramente é bom para a mídia.”

Ele explica – de maneiro muito didática e cruel (até) — que “o Facebook tira dinheiro da atenção e dos dados, e não importa onde essa atenção e dados sejam entregues. Apenas se preocupa com a manifestação”. E observa que a promessa de ganho para editores feita pelo Facebook está se esgotando e apenas a empresa ganhou com isso.

“A rede social quer expandir-se, brutalmente, inesgotável, sem fim, percorrendo sempre mais olhos, mais tempo, mais dados e mais dinheiro”

Da mesma maneira, a promessa do Facebook de conectar pessoas está cada vez mais vazia. “A rede social quer expandir-se, brutalmente, inesgotável, sem fim, percorrendo sempre mais olhos, mais tempo, mais dados e mais dinheiro”, afirma Topolsky.

Então — explica ele — para seguir na sua ambição, a rede muda agora para fazê-lo numa velocidade menor, mas de maneira mais sólida. Apostando em “conteúdo seguro, leve, emocional e “pessoal”. E que isso afastará as notícias, todas elas, sejam falsas ou verdadeiras.

Nesse ponto do artigo, Topolsky afirma categoricamente uma verdade que muitos ainda não têm consciência ou, se tem, não exercem esse poder: “Os editores não precisam do Facebook. Mas o Facebook precisa de nós.”

E argumenta: “O Facebook, apesar de todas as suas melhores intenções, ainda é apenas um cachorrinho estúpido — uma coisa que entrega, não a própria coisa. O tubo deve ser preenchido, sim, com coisas como grupos aos quais você pertence e fotos de novos bebês, sim com conversas e eventos do Messenger. Mas a informação é moeda e o que é valioso para a maioria das pessoas é saber o que está acontecendo no mundo e tentar compreendê-lo.”

“Isso não desaparece porque o Facebook quer manter as mãos limpas. Simplesmente vai para outro lugar. Até mesmo o mercado teve uma reação negativa a esta notícia,  tirando cerca de US$ 25 bilhões do limite de mercado da rede após o anúncio. Eu não acho que seja um acaso – acho que o Facebook não sabe o que o produto realmente é”, acrescenta.Segundo ele, “o Facebook logo perceberá que não pode ser o que quer ser só com imagens de bebê”.

Fakenews e tendências

Ainda segundo  Topolsky, a mudança do Facebook é uma grande oportunidade para que editoras, jornais e empresas do tipo repensem sua relação com a rede. E tirem proveito de seus conteúdos sem submetê-los à empresa de Zuckeberg.

“Talvez desta vez, todos nós evitemos explodir ao não dar aos titãs de tecnologia todas as coisas que eles pedirem, enquanto não dão nada em troca. Talvez desta vez, quando o Facebook disser às organizações de notícias para demitir 40 escritores e contratar 40 produtores de vídeo, todos perceberão que o experimento nem sempre vale a pena. Talvez possamos ser todos sábios e … melhorar na internet.”

“Lembre-se, o Facebook é o motivo pelo qual as “notícias falsas” cresceram tanto nos últimos dois anos. O Facebook e o Twitter (para ser justo) são a razão pela qual os traficantes de indignação hiperpartidária conseguiram penetrar nossos feeds. O Facebook —  e a falta de compreensão sobre o que é notícia e como funciona — ajudou em grande parte na bagunça em que nos encontramos agora.

Facebook é o motivo pelo qual as “notícias falsas” cresceram tanto nos últimos dois anos

Mas o Facebook não conta as histórias. “Alguém” mais faz isso. Creio que o Facebook não pode prosperar da maneira que tem sem as histórias que os editores e os criadores produzem — e só será uma questão de tempo antes da empresa tomar conhecimento dessa verdade.

O truque será não ser atraído de volta para esta falsa ideia de que o Facebook tem uma ideia melhor de como fazê-lo do que os “alguéns”.

Há milhões de pessoas que acordam todos os dias e querem saber o que aconteceu, e querem entender, e querem saber o que acontece depois. Não será cada pessoa. Ninguém receberá todos os 2 bilhões de usuários do Facebook. Mas há algo ainda mais valioso do que um slot premium no aplicativo VR News do Facebook: um público real, com necessidades reais, com afinidades reais.

As pessoas que querem algo mais substancial do que o Facebook ou qualquer outra rede social ou qualquer mecanismo de pesquisa pode dar: algo real.

A internet – e o mundo – não é o Facebook. Se todos, não apenas editores, trabalharem  duro o suficiente, nunca será. Nós podemos definir nossos próprios termos. Podemos fazer escolhas em vez de tê-las feitas por nós. E se a indústria de mídia buscava um momento para mudar a narrativa, essa é a hora.

O Facebook acaba de dar a todos que contam histórias o presente mais maravilhoso de todos: uma chance de liderdade. O que você vai fazer com isso?”


* Com informações de Joshua Topolsky, do Outline; Adam Mosseri, do Facebook Media; e Mark Zuckebereg, no Facebook. Tradução livre e com adaptações: Everton Dantas.

Anúncios

1 comentário em “O que muda no Facebook nos próximos meses, segundo Zuckeberg

  1. Pingback: “Nossas mentes podem estar sendo sequestradas”; entenda o porquê

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: