Paralelos

“Nossas mentes podem estar sendo sequestradas”; entenda o porquê

Não se trata de um acidente ou de acaso: estamos cada vez mais distraídos e influenciados pela tecnologia (leia-se: redes sociais). Um pequeno grupo de pessoas está decidindo como bilhões gasta seu tempo, sua atenção. E algumas poucas empresas estão ganhando muito dinheiro com isso e se tornando muito, muito poderosas. A ponto de influenciar nossa política e economia. Tudo planejado para ser exatamente assim; e cada vez mais.

Agora, passada a lua de mel com as redes sociais, começam a surgir alguns questionamentos sobre como estamos – sem ter noção – sendo submetidos a esquemas psicológicos que “sequestram nossas mentes” e transformam aquela rápida checada no Facebook ou Instagram numa viagem sem fim por dezenas de minutos a fio, como no poema “No ogo de beisebol”, de William Carlos William, “permanentemente, gravemente, sem pensar” (Poemas, 1987).

No texto a seguir – uma mega reportagem – o jornalista Paul Lewis traz diferentes especialistas falando sobre isso e sobre como este problema – considerado por um deles como ” o grande problema do nosso tempo” – pode afetar a democracia como conhecemos… Em todo o mundo, não só no Brasil.

Esse artigo foi publicado originalmente no The Guardian, em outubro de 2017, sob o título “‘Our minds can be hijacked’: the tech insiders who fear a smartphone dystopia” (na íntegra, em inglês). A tradução é livre e contem adaptações que não afetam ou distorcem a mensagem original. Leitura essencial para quem quer entender de “fakenews” e outros fenômenos contemporâneos.

“Justin Rosenstein ajustou seu laptop para bloquear o Reddit, se proibiu de acessar o Snapchat – algo que ele compara a heroína – e impôs limites ao seu uso do Facebook. Mas mesmo isso não foi suficiente. Em agosto, o executivo de tecnologia de 34 anos deu um passo mais radical para restringir seu uso de mídias sociais e outras tecnologias do tipo. Rosenstein comprou um novo iPhone e instruiu seu assistente a configurar um recurso de controle parental para evitar que ele baixasse aplicativos.

Ele é particularmente consciente acerca do fascínio que os “likes” do Facebook possuem, algo que descreve como “estalos brilhantes de pseudo-prazer”, que podem ser tão vazios quanto sedutores. E Rosenstein tem motivos para saber disso: ele é o ex-engenheiro do Facebook que criou o botão “like” em primeiro lugar.

Rosenstein pertence a uma pequeno, mas crescente grupo de hereges do Vale do Silício que se queixam do surgimento da chamada “economia de atenção”: uma internet em torno das demandas de uma economia publicitária.

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Justin Rosenstein, ex-engenheiro do Facebook, hoje preocupado com a forma como a tecnologia afeta nossas vidas. (Foto: Reprodução/Asana Communications)

Caras como Rosenstein ​raramente são fundadores ou executivos-chefe, que têm pouco incentivo para se afastar do mantra de que suas empresas estão fazendo o mundo um lugar melhor. Em vez disso, eles tendem a percorrer uma ou duas rodadas da trajetória corporativa: designers, engenheiros e gerentes de produtos que, como Rosenstein, há vários anos colocaram os blocos de construção de um mundo digital do qual agora estão tentando desvencilhar-se.

“É muito comum”, diz Rosenstein, “que os humanos desenvolvam coisas com as melhores intenções e que isso acabe tenha consequências negativas e não intencionais”.

Rosenstein, que também ajudou a criar a Gchat durante um período no Google e agora lidera uma empresa com sede em São Francisco que melhora a produtividade de escritórios, parece mais preocupado com os efeitos psicológicos nas pessoas que – segundo pesquisa – deslizam ou tocam seu telefone 2.617 vezes por dia.

Existe uma preocupação crescente de que, além de usuários viciados, a tecnologia esteja contribuindo para a chamada “atenção parcial contínua”, limitando severamente a capacidade de foco das pessoas e possivelmente diminuindo o QI.

Um estudo recente mostrou que a mera presença de smartphones prejudica a capacidade cognitiva – mesmo quando o dispositivo está desligado. “Todos estão distraídos o tempo inteiro”, diz Rosenstein.

Mas essas preocupações são triviais em comparação com o impacto devastador sobre o sistema político que alguns dos colegas de Rosenstein acreditam que pode ser atribuído ao aumento das mídias sociais e do mercado baseado em atenção que o impulsiona.

Fazendo uma ligação direta entre o vício em redes sociais e terremotos políticos como Brexit e o surgimento de Donald Trump, eles afirmam que as forças digitais sacudiram completamente o sistema político e, se deixadas sem controle, podem mesmo tornar a democracia como a conhecemos obsoleta.

“Todos estão distraídos o tempo inteiro”

Em 2007, Rosenstein fez parte de um pequeno grupo de funcionários do Facebook que decidiu criar um atalho – um único clique – para “enviar pequenos bits de positividade” dentro plataforma. O botão “like” do Facebook foi, afirmou Rosenstein, foi descontroladamente bem sucedido: o envolvimento aumentou muito assim que as pessoas começaram a desfrutar do impulso de curto prazo em dar ou receber aprovação social, enquanto o Facebook colheu dados valiosos sobre as preferências dos usuários que poderiam ser vendidos aos anunciantes.

A ideia foi logo copiada pelo Twitter, Instagram e inúmeros outros aplicativos e sites.

Foi uma colega de Rosenstein, Leah Pearlman, então gerente de produto no Facebook e na equipe que criou o “like”, que anunciou o recurso em uma postagem de 2009. Agora com 35 e atualmente trabalhando como ilustradora, Pearlman confirmou por e-mail que também ficou descontente com o botão e outros mecanismos de feedback viciante. Ela instalou um plug-in de navegador web para erradicar seu feed de notícias do Facebook e contratou um gerente de mídia social para monitorar sua página do Facebook para que ela não precisasse fazê-lo.

É revelador que muitos desses tecnólogos mais jovens estão se desprendendo de seus próprios produtos, enviando seus filhos para as melhores escolas no Vale do Silício, onde iPhones, iPads e até mesmo laptops são banidos.

Eles parecem estar cumprindo uma letra do rapper Notorious B.I.G  sobre sua juventude e os perigos de lidar com cocaína e crack : “nunca use a sua droga”.

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Nir Eyal, autor de Hooked (Foto: Youtube TED Institute)

Uma manhã de abril deste ano, designers, programadores e empresários de tecnologia de todo o mundo se reuniram em um centro de conferências na margem da baía de São Francisco. Cada um pagou até US$ 1.700 para aprender a manipular as pessoas no uso habitual de seus produtos, em um curso com curadoria do organizador da conferência, Nir Eyal.

Eyal, de 39 anos, o autor de Hooked: How to Build Habit-Forming Products, passou vários anos dando consultoria para a indústria de tecnologia, ensinando técnicas que ele desenvolveu ao estudar de perto como os gigantes do Vale do Silício operam.

“As tecnologias que utilizamos tornaram-se compulsões, se não vícios de pleno direito”, escreve Eyal. “É o impulso de verificar uma notificação de mensagem. É a atração de visitar o YouTube, o Facebook ou o Twitter por apenas alguns minutos, apenas para se achar ainda tocando e deslizando a tela uma hora depois. Nada disso é um acidente. É tudo como os designers pretendiam”.

Ele explica os truques psicológicos sutis que podem ser usados ​​para que as pessoas desenvolvam hábitos, como variar as recompensas que elas recebem para criar “uma expectativa”, ou explorar emoções negativas que podem atuar como “desencadeantes”. “Sentimentos de tédio, solidão, frustração, confusão e indecisão muitas vezes instigam uma leve dor ou irritação e provocam uma ação quase instantânea, muitas vezes, insensata para reprimir a sensação negativa”, escreve Eyal.

“As tecnologias que utilizamos tornaram-se compulsões, se não vícios de pleno direito (…) Nada disso é um acidente. É tudo como os designers pretendiam”

Os participantes da Conferência de 2017 podem ter ficado surpresos quando Eyal caminhou no palco para anunciar que o discurso de destaque deste ano era sobre “algo um pouco diferente”. Ele queria abordar a crescente preocupação de que a manipulação tecnológica seja de alguma forma prejudicial ou imoral. Ele disse ao público que eles deveriam ser cuidadosos para não abusar do design persuasivo, e ficar atentos para não transformar isso em coerção.

Mas ele estava ali defendendo as técnicas que ensina e desdenhando daqueles que comparam o vício de tecnologia com as drogas. “Nós não estamos ‘cheirando’ o Facebook e injetando o Instagram aqui”, disse ele. “Assim como não devemos culpar o padeiro por fazer iguarias tão deliciosas, não podemos responsabilizar os fabricantes de tecnologia por fazer seus produtos tão bons que queremos usá-los. Claro que é isso que as empresas de tecnologia irão fazer. E, francamente: queremos isso de outra maneira?”

Sem ironia, Eyal terminou a conversa com algumas dicas pessoais para resistir à atração da tecnologia. Ele disse ao público que ele usa uma extensão do Chrome, chamada DF YouTube, “que filtra muitos desses disparadores externos”. E em seu livro ele recomenda um aplicativo chamado Pocket Points que “recompensa você por ficar fora do seu telefone quando você precisa se concentrar “.

Finalmente, Eyal confidenciou que vai proteger sua própria família. Ele instalou em sua casa um temporizador de saída conectado a um roteador que corta o acesso à internet em um horário fixo todos os dias. “A ideia é lembrar que não somos impotentes”, disse ele. “Estamos no controle”.

Mas nós estamos? Se as pessoas que construíram essas tecnologias estão tomando medidas tão radicais para libertar-se, o resto de nós é de se esperar que exercitemos nosso livre arbítrio?

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Tristan Harris, especialista em como a tecnologia pode sequestrar nossa atenção (Foto: Reprodução/Youtube/TED Talks)

Não de acordo com Tristan Harris, um ex-funcionário do Google de 33 anos tornou-se um crítico vocal da indústria de tecnologia. “Todos nós estamos envolvidos neste sistema”, diz ele. “Todas as nossas mentes podem ser sequestradas. Nossas escolhas não são tão livres quanto pensamos que elas são. ”

Harris afirma que bilhões de pessoas têm pouca escolha sobre se usam essas tecnologias agora onipresentes e desconhecem grandemente as maneiras invisíveis pelas quais um pequeno número de pessoas no Vale do Silício estão moldando suas vidas.

Graduado da Universidade de Stanford, Harris estudou com BJ Fogg, um psicólogo comportamental reverenciado em círculos tecnológicos por dominar as formas em que o design tecnológico pode ser usado para persuadir as pessoas. Muitos de seus alunos, incluindo Eyal, estabeleceram carreiras prósperas no Vale do Silício.

“Não conheço um problema mais urgente que isso. Está mudando a democracia e  a nossa capacidade de ter conversas e relacionamentos que queremos uns com os outros”

Harris é o aluno que se rebelou; um denunciante, que está levantando a cortina sobre os vastos poderes acumulados pelas empresas de tecnologia e as formas como elas estão usando essa influência. “Um punhado de pessoas, trabalhando em um punhado de empresas de tecnologia, através de suas escolhas, dirigirá o que um bilhão de pessoas está pensando hoje”, disse ele em conversa no TED, em Vancouver.

“Não conheço um problema mais urgente do que isso”, afirma Harris. “Está mudando a nossa democracia e está mudando a nossa capacidade de ter as conversas e os relacionamentos que queremos uns com os outros”. Harris foi a público — realizando conversas, escrevendo documentos, reunindo-se com legisladores e fazendo campanha por reformas — depois de três anos lutando para efetuar mudanças dentro do Google.

Tudo começou em 2013, quando ele estava trabalhando como gerente de produto no Google, e publicou um memorando provocativo, “Um chamado para minimizar a distração e respeitar a atenção dos usuários”, para 10 colegas próximos. Isso soou como um acorde, espalhando-se para cerca de 5.000 funcionários do Google, incluindo executivos seniores, que recompensaram Harris com um novo e impressionante trabalho: ele deveria ser o filósofo de produtos e eticista de design interno do Google.

Ele explorou como o LinkedIn explora uma necessidade de reciprocidade social para ampliar sua rede; como YouTube e Netflix reproduzem automaticamente os vídeos e os próximos episódios, privando os usuários de uma escolha sobre se querem ou não continuar assistindo; como a Snapchat criou seu recurso de Snapstreaks viciante, incentivando a comunicação quase constante entre seus usuários na maior parte dos adolescentes.

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“Não há ética” na forma como as empresas de tecnologia exploram suas técnicas de persuasão. (Foto: Pexels)

As técnicas que essas empresas usam nem sempre são genéricas: elas podem ser adaptadas algorítmicamente a cada pessoa. Um relatório interno do Facebook vazado em 2017, por exemplo, revelou que a empresa pode identificar quando os adolescentes se sentem “inseguros”, “sem valor” e “precisam de um impulso de confiança”. Essa informação granular, acrescenta Harris, é “um modelo perfeito de quais botões você pode empurrar em uma determinada pessoa”.

As empresas de tecnologia podem explorar essas vulnerabilidades para manter as pessoas viciadas; manipulando, por exemplo, quando as pessoas recebem “likes” para suas postagens, garantindo que elas cheguem quando um indivíduo provavelmente se sentirá vulnerável, ou precisaria de aprovação, ou talvez simplesmente entediado. E as mesmas técnicas podem ser vendidas para quem der o maior lance. “Não há ética”, diz Harris.

Ele acredita que as empresas de tecnologia nunca deliberadamente decidiram tornar seus produtos viciantes. Eles estavam respondendo aos incentivos de uma economia publicitária, experimentando técnicas que poderiam atrair a atenção das pessoas, até encontrarem um design altamente efetivo.

“As empresas de tecnologia podem explorar essas vulnerabilidades para manter as pessoas viciadas”

Um amigo no Facebook disse a Harris que os designers inicialmente decidiram que o ícone de notificação, que alerta pessoas para novas atividades, como “solicitações de amizade” ou “gosta”, devia ser azul. Ele se encaixava no estilo do Facebook e, segundo o pensamento, pareceria “sutil e inócuo”. “Mas ninguém o usou”, diz Harris. “Então eles mudaram para vermelho e, claro, todos o usaram”.

Esse ícone vermelho está agora em todos os lugares. Quando os usuários de smartphones olham para seus telefones, dezenas ou centenas de vezes por dia, eles são confrontados com pequenos pontos vermelhos ao lado de seus aplicativos, alegando ser aproveitado. “O vermelho é uma cor de gatilho”, diz Harris. “É por isso que é usado como um sinal de alarme”.

O design mais sedutor, explica Harris, explora a mesma susceptibilidade psicológica que faz o jogo tão compulsivo: recompensas variáveis. Quando tocamos esses aplicativos com ícones vermelhos, não sabemos se descobriremos um e-mail interessante, uma avalancha de “gosta” ou nada. É a possibilidade de desapontamento que o torna tão compulsivo.

É isso que explica como o mecanismo de pull-to-refresh, pelo qual o usuário desliza, pausa e espera para ver o conteúdo, rapidamente se tornou uma das características de design mais viciantes e onipresentes na tecnologia moderna. “Cada vez que você está passando, é como uma slot machine”, diz Harris. “Você não sabe o que vem depois. Às vezes, é uma bela foto. Às vezes é apenas um anúncio. ”

Loren Brichter
Loren Brichter, o criador do mecanismo pull-to-refresh (Foto: Tim Knox/Behance)

O designer que criou o mecanismo de pull-to-refresh, usado pela primeira vez para atualizar feeds do Twitter, é Loren Brichter, amplamente admirado na comunidade de criação de aplicativos por seus projetos inteligentes e intuitivos.

Agora com 32 anos, Brichter diz que nunca pretendia que o design fosse viciante — mas não contesta a comparação com máquina de caça-níqueis. “Eu concordo 100%”, diz ele. “Tenho dois filhos agora e lamento cada minuto que não prestei atenção porque o meu smartphone me sugou”.

Brichter criou o recurso em 2009 para Tweetie (app do IOS para acessar o Twitter), principalmente porque ele não conseguiu encontrar nenhum lugar para se ajustar ao botão “atualizar” em seu aplicativo. Segurar e arrastar o feed para atualizar parecia no momento nada mais do que uma correção “fofa e inteligente”. O Twitter adquiriu o Tweetie no ano seguinte, integrando pull-to-refresh em seu próprio aplicativo.

Desde então, o design tornou-se um dos recursos mais amplamente emulados em aplicativos. A ação de puxar para baixo é, para centenas de milhões de pessoas, tão intuitiva como coçar.

Brichter diz que está perplexo com a longevidade do recurso. Em uma era de tecnologia de notificação push, os aplicativos podem atualizar automaticamente o conteúdo sem ser empurrados pelo usuário. “Poderia facilmente ser aposentado”, diz ele. Em vez disso, parece que serve uma função psicológica: afinal, as máquinas caça-níqueis seriam muito menos viciantes se os jogadores não conseguissem puxar a própria alavanca. Brichter prefere outra comparação: que é como o botão redundante de “porta fechada” em alguns elevadores com portas de fechamento automático. “As pessoas simplesmente gostam de empurrar isso”.

“Os smartphones são ferramentas úteis. Mas eles são viciantes. O ‘pull-to-refresh’ é viciante. O Twitter é viciante. Não são coisas boas.”

Tudo isso fez com que Britcher, que colocou seu trabalho de design em banho-maria enquanto se concentra na construção de uma casa em Nova Jersey, questionasse seu legado. “Passei muitas horas, semanas e meses e anos pensando se qualquer coisa que fiz aconteceu com um impacto positivo líquido na sociedade ou na humanidade”, diz. Ele bloqueou certos sites, desativou as notificações push, limitou seu uso do aplicativo Telegram a mensagem apenas com sua esposa e dois amigos íntimos e tentou se livrar do Twitter. “Eu ainda perdi tempo apenas lendo notícias estúpidas que já conhecia.” Ele carrega seu telefone na cozinha, conectando-o às 19h e não tocando até a manhã seguinte.

“Os smartphones são ferramentas úteis”, diz ele. “Mas eles são viciantes. O recurso ‘pull-to-refresh’ é viciante. O Twitter é viciante. Não são coisas boas. Quando eu estava trabalhando neles, não era algo que eu era maduro o suficiente para pensar. Não estou dizendo que estou maduro agora, mas estou um pouco mais maduro e lamento as desvantagens ”

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Notificação em vermelho, um dos esquemas para captar a atenção das pessoas (Foto: Pexels)

Nem todo mundo em seu campo parece cheio de culpa. Os dois inventores listados na patente da Apple para “gerenciar conexões de notificação e exibir ícones de emblemas” são Justin Santamaria e Chris Marcellino. Ambos estavam com 20 anos quando foram contratados pela Apple para trabalhar no iPhone. Como engenheiros, eles trabalharam no encanamento dos bastidores para a tecnologia de notificação push, introduzida em 2009 para permitir alertas em tempo real e atualizações para centenas de milhares de desenvolvedores de aplicativos de terceiros. Foi uma mudança revolucionária, proporcionando infraestrutura para muitas experiências que agora fazem parte da vida cotidiana das pessoas, como pedir um Uber, fazer uma chamada do Skype e receber atualizações de notícias.

Mas a tecnologia de notificação também permitiu uma centena de interrupções não solicitadas em milhões de vidas, acelerando a corrida de armamentícia para capturar a atenção das pessoas. Santamaria, de 36 anos, que agora administra uma startup após um período como chefe de celular na Airbnb, diz que a tecnologia que desenvolveu na Apple não era “inerentemente boa ou ruim”. “Esta é uma discussão maior para a sociedade”, diz ele. “É correto desligar meu telefone quando eu sair do trabalho? Está bem se eu não voltar pra você? Está certo que não estou “gostando” de tudo o que passa pela tela do Instagram? ”

Seu então colega, Marcellino, concorda. “Honestamente, em nenhum momento eu estava sentado pensando: vamos ligar as pessoas”, diz ele. “Foi tudo sobre os aspectos positivos: esses aplicativos conectam pessoas, eles têm todos esses usos – o ESPN lhe diz que o jogo terminou, ou o WhatsApp lhe oferece uma mensagem gratuita do seu membro da família no Irã, que não possui um plano de mensagens. ”

“Não é inerentemente malvado levar as pessoas de volta ao seu produto. É capitalismo”

Alguns anos atrás, Marcellino, 33, saiu da área da baía, e agora está em fase final de reciclagem para ser uma neurocirurgião. Ele ressalta que não é um especialista em vícios, mas diz que pegou o suficiente em seu treinamento médico para saber que as tecnologias podem afetar os mesmos caminhos neurológicos que o jogo e o uso de drogas. “Estes são os mesmos circuitos que fazem as pessoas procurar comida, conforto, calor, sexo”, diz ele.

Tudo isso, ele diz, é um comportamento baseado em recompensas que ativa os caminhos da dopamina do cérebro. Às vezes, ele se pega clicando nos ícones vermelhos ao lado de seus aplicativos “para fazê-los desaparecer”, mas está em conflito com a ética de explorar as vulnerabilidades psicológicas das pessoas. “Não é inerentemente malvado levar as pessoas de volta ao seu produto”, diz ele. “É capitalismo”.

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Roger McNamee: “O Facebook e o Google afirmam que dão aos usuários o que eles querem. O mesmo pode ser dito sobre traficantes de drogas”(Foto: Reprodução/David A. Grogan/CNBC)

Isso, talvez, seja o problema. Roger McNamee, um capitalista de risco que se beneficiou de investimentos extremamente rentáveis ​​no Google e no Facebook, ficou desencantado com ambas as empresas, argumentando que suas primeiras missões foram distorcidas pela fortuna que eles conseguiram ganhar através da publicidade.

Ele identifica o advento do smartphone como um ponto de virada, elevando as apostas em uma corrida armamentista para a atenção das pessoas. “O Facebook e o Google afirmam com mérito que estão dando aos usuários o que eles querem”, diz McNamee. “O mesmo pode ser dito sobre empresas de tabaco e traficantes de drogas”.

Essa seria uma asserção notável para qualquer investidor precoce nos gigantes mais lucrativos do Vale do Silício. Mas McNamee, de 61 anos, é mais do que um homem de dinheiro com armas. Uma vez conselheiro de Mark Zuckerberg, há 10 anos McNamee apresentou o CEO do Facebook ao seu amigo, Sheryl Sandberg, então executivo do Google que supervisionou os esforços de publicidade da empresa. Sandberg, é claro, tornou-se diretor de operações no Facebook, transformando a rede social em outro peso pesado publicitário.

“O problema é que não há nada que as empresas possam fazer para enfrentar os danos”

McNamee escolhe suas palavras com cuidado. “As pessoas que dirigem o Facebook e o Google são boas pessoas, cujas estratégias bem-intencionadas levaram a terríveis consequências involuntárias”, diz ele. “O problema é que não há nada que as empresas possam fazer para enfrentar os danos, a menos que eles abandonem seus modelos de publicidade atuais”.

Mas como o Google e o Facebook podem ser forçados a abandonar os modelos de negócios que os transformaram em duas das empresas mais lucrativas do planeta?

McNamee acredita que as empresas em que ele investiu devem ser submetidas a uma maior regulamentação, incluindo novas regras anti-monopólio. Em Washington, há um crescente apetite, em ambos os lados da divisão política , para controlar o Vale do Silício. Mas McNamee alerta para o fato de que os gigantes que ele ajudou a construir já podem ser muito grandes demais para serem controlados. “A UE penalizou recentemente o Google US $ 2,42 bilhões por violações anti-monopólio, e os acionistas do Google simplesmente encolheram os ombros”, diz ele.

Rosenstein, o co-criador de “como” do Facebook, acredita que pode haver um caso para a regulamentação estadual de “publicidade psicologicamente manipuladora”, dizendo que o ímpeto moral é comparável à ação contra empresas de combustíveis fósseis ou tabaco. “Se nos importarmos apenas com a maximização do lucro”, diz ele, “iremos rapidamente para a distopia”.

James Williams
James Williams, criador do sistema de métricas do Google (Foto: Twitter @WilliamsJames_)

James Williams não acredita que falar de distopia é exagerado. O ex-estrategista  do Google que criou o sistema de métricas para o negócio global de publicidade de pesquisa da empresa, tem uma visão de linha de frente de uma indústria que ele descreve como a “maior, mais padronizada e mais centralizada forma de controle de atenção na história humana”.

Williams, de 35 anos, deixou o Google no ano passado e está prestes a completar um doutorado na Universidade de Oxford explorando a ética do design persuasivo. É uma jornada que o levou a questionar se a democracia pode sobreviver à nova era tecnológica.

Ele diz que sua epifania ocorreu há alguns anos, quando percebeu que ele estava cercado de tecnologia que o impedia de se concentrar nas coisas em que ele queria se concentrar. “Foi esse tipo de realização individual e existencial: o que está acontecendo? Não é suposto que a tecnologia esteja fazendo todo o oposto disso?”

Esse desconforto foi agravado durante um momento no trabalho, quando ele olhou para um dos painéis do Google, uma tela multicolorida mostrando a quantidade de atenção das pessoas que a empresa havia requisitado para anunciantes. “Eu percebi: isso é, literalmente, um milhão de pessoas com as quais mexemos ou persuadimos a fazer isso que eles não deveriam fazer”, lembra ele.

Ele embarcou em vários anos de pesquisas independentes, muitas das quais conduzidas ao trabalhar a tempo parcial no Google. Cerca de 18 meses depois, ele viu o memorando do Google circulado por Harris e os dois se tornaram aliados, lutando para provocar mudanças de dentro.

“A mídia de notícias está trabalhando cada vez mais no serviço das empresas de tecnologia e deve seguir as regras da economia de atenção para ‘sensacionalizar’, atrair e entreter para sobreviver”

Williams e Harris deixaram o Google ao mesmo tempo e co-fundaram um grupo de advocacia, Time Well Passado, que procura impulsionar o público para uma mudança na forma como as empresas de tecnologia grande pensam sobre o design. Williams achou difícil entender por que essa questão não é “a primeira página de todos os jornais todos os dias.

“Oitenta e sete por cento das pessoas acordam e vão dormir com seus smartphones”, diz ele. O mundo inteiro agora tem um novo prisma através do qual entendem a política, e Williams preocupa que as conseqüências sejam profundas.

As mesmas forças que levaram as empresas de tecnologia a engajar usuários com truques de design, diz ele, também encorajam essas empresas a retratar o mundo de forma a fazer uma visualização compulsiva e irresistível. “A economia de atenção incentiva o design de tecnologias que chamam nossa atenção”, diz ele. “Ao fazê-lo, privilegia nossos impulsos sobre nossas intenções”.

Isso significa privilegiar o que é sensacional sobre o que é matizado, atraente para emoção, raiva e indignação. A mídia de notícias está trabalhando cada vez mais no serviço das empresas de tecnologia, acrescenta Williams, e deve seguir as regras da economia de atenção para “sensacionalizar, atrair e entreter para sobreviver”.

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Donald Trump, um dos fenômenos promovidos pela “economia da atenção” (Foto: Fórum Econômico Mundial / Boris Baldinger)

Na sequência da impressionante vitória eleitoral de Donald Trump, muitos foram rápidos em questionar o papel das chamadas “notícias falsas” no Facebook, na Rússia criaram bots do Twitter ou os esforços de segmentação centrados em dados que empresas como a Cambridge Analytics usavam para influenciar os eleitores . Mas Williams vê esses fatores como sintomas de um problema mais profundo.

Não são apenas atores sombrios ou ruins que estavam explorando a internet para mudar a opinião pública. A própria economia de atenção é criada para promover um fenômeno como o Trump, que é magistral em agarrar e manter a atenção de defensores e críticos, muitas vezes explorando ou criando indignação.

Williams estava fazendo este caso antes que o presidente fosse eleito. Em um blog publicado um mês antes das eleições dos EUA , Williams soou o alarme em uma questão que ele argumentou como uma “questão muito mais relevante” do que se Trump chegasse à Casa Branca. A campanha da estrela de TV, disse ele, anunciou uma divisão hidrográfica em que “a nova dinâmica digitalmente sobrecarregada da economia da atenção finalmente cruzou um limiar e se tornou manifesto no domínio político”.

Williams viu uma evolução dinâmica semelhante meses antes, durante a campanha de Brexit, quando a economia de atenção se mostrou tendenciosa em favor do caso emocional e identitário para o Reino Unido que saiu da União Européia. Ele enfatiza que essas dinâmicas não estão isoladas do direito político: eles também desempenham um papel, ele acredita, na popularidade inesperada de políticos de esquerda, como Bernie Sanders e Jeremy Corbyn, e os freqüentes surtos de indignação na internet por questões que inflamam a fúria entre progressistas.

“A dinâmica da economia da atenção está estruturalmente organizada para minar a vontade humana”

Tudo o que – diz ele – não apenas distorce a forma como vemos a política, mas, ao longo do tempo, pode mudar a forma como pensamos, tornando-nos menos racionais e mais impulsivos. “Nos habituamos a um estilo cognitivo perpétuo de indignação, internalizando a dinâmica do meio”, diz ele.

É contra este cenário político que Williams argumenta que a fixação nos últimos anos com o estado de vigilância ficcionada por George Orwell pode ter sido mal colocada. Foi outro escritor inglês de ficção científica, Aldous Huxley, que forneceu a observação mais consciente quando advertiu que a coerção ao estilo orwelliano era menos uma ameaça para a democracia do que o poder mais sutil da manipulação psicológica e o “desejo quase infinito do homem por distrações”.

Desde a eleição dos EUA, Williams explorou outra dimensão para o novo mundo bravo de hoje. Se a economia da atenção corrompa nossa capacidade de lembrar, argumentar, tomar decisões por nós mesmos – faculdades essenciais para a autogoverno – que esperança existe para a própria democracia?

“A dinâmica da economia da atenção está estruturalmente organizada para minar a vontade humana”, diz ele. “Se a política é uma expressão de nossa vontade humana, nos níveis individual e coletivo, a economia da atenção está prejudicando diretamente os pressupostos sobre os quais a democracia se baseia.” Se a Apple, o Facebook, o Google, o Twitter, o Instagram e o Snapchat estão gradualmente afastando nosso capacidade de controlar nossas próprias mentes, poderia chegar a um ponto, pergunto, em que a democracia já não funcione?

“Será que vamos poder reconhecê-lo, se e quando isso acontecer?” Williams responde. “E se não pudermos, então, como sabemos que isso já não aconteceu?” //

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2 comentários em ““Nossas mentes podem estar sendo sequestradas”; entenda o porquê

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